Certo dia pela manhã ia à padaria
Ao abrir o guarda-roupas
Não sabia o que vestir
Eram formas e cores, panos e texturas
E nada me servia
Estava tão incomodado, tão atormentado
Angustiado com a vida, com o Mundo...
O pensamento vagava
E só queria encontrar a morte
"Se a vida é tão efêmera, então de nada serve
Hoje quero sair e não me responsabilizar
por mim mesmo
Quero sair de peito aberto, e que venha, nas ruas, o fim desastroso
Quero ser fúnebre, pois não aguento mais tolices. Nem minha própria tolice"
Retirei, sem titubear, do cabide, uma regata preta que jamais vestira, pensando:
"O preto evocará a morte."
Estava eu no oitavo andar, e ao entrar no elevador já ouvia a conversa de algumas pessoas do sétimo, especialmente uma frase entoada em voz feminina:
- Quer ver que ele vai mudar de idéia!? ...Bem, foi a única frase de que consigo me lembrar dentre todas as outras naquele instante infinito.
Eis que entra no elevador uma menininha de grandes olhos castanhos que ficavam me fitando. Estava abraçada a um lindo urso de pelúcia. Com ela também estavam, uma senhora muito bem vestida, com um suave perfume, e um senhor de expressão sublime e cheiro de terra ou suor.
Ao chegar no térreo abri a porta do elevador para que os três passassem.
E prontamente, também, a porta de entrada/saída do prédio.
A cordialidade é uma herança deixada pela maioria das pessoas de meu convívio. Uma pena que eu não a pratique sempre.
A jovem e sua vovó seguiram por um caminho e o senhor se aproximou dizendo algo que não entendi, mostrando-me um de seus dedos:
- Olha, eu prendi no "blá, blá, blá"... (interferência na comunicação)
Perguntei:
- Como, senhor? O que foi que o senhor disse?
- Rapaz, hoje prendi meu dedo na porta, olha como ficou inchado.- Nossa, senhor! Está dolorido? O senhor prendeu na porta de casa?
- Não! No guarda-roupas!E continuou enquanto andávamos em direção à portaria do condomínio:
- Sabe, jovem... As vezes temos noites extravagantes, bebemos demais e acabamos perdendo a consciência. Isso acontece. Tem dias que acordo horrível após aquele pileque do dia anterior.- É verdade, senhor.
Tudo fazia sentido, lembrava de alguns surtos que tive ao fumar "alguns" na noite passada.
- Por isso, todo dia antes de sair de casa faço minha meditação, pra deixar a mente calma, limpá-la das perturbações do passado. É claro que já saí sem meditar muitas vezes, mas toda vez que assim o fiz assumi a responsabilidade por meus atos. É uma escolha nossa, mas recomendo que sempre medite antes de enfrentar o caos da cidade.Então o senhor levou as sacolas de lixo que carregava pro compartimento de coleta próximo à portaria, e voltou onde me deixou.
A única coisa que consegui dizer foi:
- Obrigado, senhor. O senhor mora no prédio?
-Sim, no sétimo andar.Então voltei, tirei as roupas, meditei... e mais uma vez se fez luz em uma mente quase adormecida.
Hoje, após muitas experiências, sei que coincidências não existem, e não mais contesto a presença de Deus, Cosmos, Força Oculta ou Mística, ou, qualquer outra palavra que se refira ao "Grande Espírito" que cria e anima todo este Universo.
Basta ter olhos para ver, basta ser vivo para sentir.
Obrigado, sábios Senhor e Senhora do sétimo andar!